No tempo que fui a escola, e acredito que ainda seja assim, estudava-se que o Brasil havia sido descoberto em 22 de abril de 1500. Cresci com essa idéia plantada na minha cabeça, como outras tantas, sem parar para pensar no que realmente significava.
Sempre me surpreende que só burra velha me caiam fichas tão evidentes, mas fazer o que? Resta o consolo de que pelo menos ainda tenho tempo de protestar com as ferramentas que disponho. Vamos começar pelo começo, ontem fui ao lançamento de um livro da Sabrina Morais, O Direito Humano Fundamental ao Desenvolvimento Social. Ela fez uma apresentação breve da sua tese, que gerou o livro. Ainda não o li, coisa que devo fazer no futuro, pois a conversa rápida com ela depois no coquetel me fez pensar que era um estudo bem aprofundado.
Antes de falar sobre o livro, houve duas apresentações. A primeira, sobre um vídeo independente gravado em 2000, mostrando um pouco dos bastidores do que aconteceu na cidade de Porto Seguro, enquanto era preparada a famosa festa dos 500 anos do descobrimento do Brasil. A outra apresentação era sobre folclore. Mas vamos ao que interessa, esse vídeo foi gravado por uma amiga, a mesma que fez a apresentação, mostrando o outro lado da festa dos 500 anos. O lado dos excluídos, dos que não foram convidados e do que não se mostrou na TV.
Pela primeira vez, percebi que o Brasil é o único país que comemorava a sua própria invasão! Sim, porque no dia 22 de abril de 1500, o Brasil foi invadido por portugueses, tão simples quanto isso. Não vou entrar na discussão babaca de dívidas históricas, isso é passado, mas daí a comemorar? O nosso herói é um invasor? E pior, como assim descobrimento, não havia nada antes? Os índios eram o que? Parte da paisagem? Árvores? As línguas faladas eram grunidos? O conhecimento das ervas eram acaso.
Aceitar que o Brasil foi descoberto é um desrespeito com a nossa origem. A imagem folclórica do indiozinho sorridente com um penacho na cabeça e uma flechinha na mão é ofensiva, é fantasia de carnaval. Quantos índios na sua vida você viu sorrindo? Tenho uma bisavó índia que nunca conheci. Não sei o que levo dela, meus hábitos e minha aparência é branca européia. E também não tenho porque negar esse lado, eu gosto da mistura. Mas sei que minha primeira peça de arte é uma escultura em argila de uma índia grávida, altiva e brava. Não sei porque a fiz, mas talvez em alguma parte do meu sangue haja a memória genética, aquela que nem sabemos. Espero que sim, pode ser meu lado mais forte.
Por isso, hoje estou brava, pelos meus ancestrais invadidos, pelos negros levados à força escravizados e pelos brancos que deixaram seu próprio país por falta de opção. É essa minha origem, foi desse barro que saí, independente da onde esteja e de que cara tenha. Queria um dia ter muita vontade de voltar ao Brasil e que não fosse pela saudade, mas porque representasse a melhor escolha. E que não fosse por ser mais desenvolvido do que outros países, mas tanto quanto.
Não quero ser mais associada à uma mulata pelada sambando nem a um jogador de futebol equilibrando uma bola no nariz como uma foca. As brasileiras são trabalhadoras, os jogadores são atletas, os índios são guerreiros, nossa raça é a mistura. Quero respeito pelo meu país.
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Escrito por Bianca


Escrito por Estevão






